Vida Crônica
Antologia

Meus irmãos e eu nascemos em um galpão enorme e barulhento. Cheirava à cola e óleo de motor. Mal vimos a luz do dia, já fomos encaixotados e levados a para nossa primeira morada, no centro da cidade. Transportados em um caminhão, todos apertados uns nos outros, plastificados e mudos, não trocamos uma só palavra. Já em casa, um menino que aparentava ser muito novo nos livrou daquela embalagem e nos dispôs em uma longa prateleira. Fiquei apertado entre dois dos meus irmãos e tive a sorte de ser posto em pé, outros azarados ficariam de ponta cabeça até serem comprados. Dois felizardos completaram a fila também em pé e com a suas capasexpostas ao público. Eles nos narravam os acontecimentos que nossas visões limitadas pelas lombadas nos impediam de testemunhar.

Nenhum de nós tinha ideia de quanto tempo ficaria ali. E como não havia muito o que fazer, conversávamos muito. Logo esgotamos as conversas, afinal éramos literalmente uns iguais aos outros. A saída foi puxar papo com as prateleiras próximas. A fileira de cima era boa de prosa, meio poética, meio viajada. Não demorou muito e já tinha gente conversando com o pessoal de baixo, inclusive eu. Eram muito reflexivos e pareciam ter resposta para tudo. Estavam lá muito antes da gente e parecia que ficariam muito mais tempo ainda. Eu os achava sábios e por isso resolvi compartilhar a minha maior dúvida lhes pedindo ajuda: pela fresta de espaço que minha lombada permitiaenxergar, eu via uma ilha de livros bem à frente da nossa estante, todos os dias vários deles eram levados. Quem eram eles? Perguntei. Enigmático, um exemplar bem abaixo de onde eu estava disse que as pessoas levavam aqueles títulos da ilha pra casa pelo mesmo motivo que eu compartilhei minha dúvida, queriam ajuda. Não entendi, talvez eu também precisasse conversar com o pessoal ali da ilha.Não deu tempo.

Na mesma semana, na hora do almoço, uma moça apressada me tirou da estante e sem nem me folhear me levou pra sua casa. Não me despedi de ninguém, mas a imagem que tive ao ser retirado da estante e enfim poder ver o mundo de frente foi indescritível.

Curioso é que no instante seguinte em que me faltaram palavras, eu conheci o Aurélio. Era um livro enorme e tinha resposta pra tudo, falava coisas que eu não entendia, coisas que estavam muito além das que eu guardava dentro de mim. No curto espaço de tempo em que conversamos dentro da sacola da livraria, aprendi muito com ele. Entre outras coisas, falei que estava ansioso, porque enfim eu seria lido e confessei que nem sequer havia sido aberto. Aurélio disse que a leitura de cabo a rabo de uma obra é superestimada. Deu como exemplo ele próprio: disse que era muito melhor ser consultado com frequência por alguns segundos, a ser lido por inteiro e depois abandonado por anos. Concordei nervoso.

Ao chegarmos ao lugar que parecia ser a casa da moça, ela nos jogou no sofá da sala e foi tomar banho. Aurélio começou uma descrição interminável dos objetos que havia no cômodo. Do tapete à lâmpada, ele discorreu toda a sua sabedoria “verbetiana”. A casa era pequena e deu pra ver que após o banho a moça foi à cozinha, preparou rapidamente algo e veio comer na sala. Enquanto segurava o garfo em uma das mãos, com a outra folheava o Aurélio parecendo procurar alguma coisa específica. Repetiu algumas vezes sussurrando a palavra “escafandro” e jogou o livro pesado na mesinha de centro. Terminou a refeição e me levou para o seu quarto.

A primeira leitura de um livro é algo muito íntimo. O que posso dizer é que além de inesquecível, foi de uma vez só. Na época fiquei feliz e orgulhoso, já que me fez sentir interessante. Mas ao mesmo tempo lembrei das palavras do Aurélio e o medo de passar o resto dos meus dias empoeirado em um canto qualquer me atormentou.

A estante da moça era modesta, principalmente em relação à da livraria. Ela me acomodou na prateleira mais alta entre uma biografia e um livro de fotografias.

Conheci muitos livros nos meses seguintes. Todos relativizavam meu medo de nunca mais ser lido. Soube que alguns estavam guardados sem nem terem sido abertos! Outros diziam que era melhor passar os últimos dias ali a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí. Repetiam como mantra. Havia também a esperança de ser emprestado. Ter uma nova casa e conhecer novos livros, já que a probabilidade de volta nessa situação é quase nula - me ensinou uma vez um livro didático. E assim aconteceu, em uma noite de festa, música e bebida a moça me emprestou.

Fui lido inúmeras vezes daquele dia em diante, sempre no regime de empréstimo. Sempre ciente de que nunca mais voltaria ao lar anterior. Um livro de piadas umas vezes me disse que até quem nos empresta no fundo sabe que nunca mais voltaremos, vai entender.

Voltas e voltas que me trouxeram aqui. SEBO, mostra o letreiro desbotado lá na frente. Há quem diga que é uma espécie de sobrevida para livros velhos e já cansados dos empréstimos. Olhando em volta tenho que concordar: “melhor aqui a terminar tendo as folhas embrulhando qualquer coisa por aí”. E olha que nem estou em estado tão ruim, me colocaram em um lugar de destaque, enfim com a capa à mostra. Uma visão privilegiada, que me permite ainda que de longe reconhecer o Aurélio mostrando para alguém o significado da palavra “reciclagem”.