Vida Crônica
Cômodos

Com a casa cheia de gente desconhecida, eu me ancorei nas companhias familiares até a cerveja, aos poucos, me libertar para o mar aberto da multidão. Planejei uma incursão à cozinha para reabastecer o copo. Ela conversava com a amiga e um rosto familiar, que me puxou para o canto do cômodo e as apresentou. Antes mesmo que eu lembrasse quem era a figura que promovia a conversa, ela elogiou a festa e minha camiseta do Lou Reed. Agradeci o elogio à reuniãozinha, embora não tivesse ideia do que comemorávamos, e chamei de vez o vocalista do Velvet Underground para a roda, emudecendo a amiga e o sujeito do meu lado, que ainda me era estranho.

A noite em que nos conhecemos foi uma prévia de como seriam os nossos encontros seguintes, ela narrando viagens e situações carregadas de empolgação, e eu sinceramente atento, embora, às vezes, um tanto frustrado por não poder colaborar com nada além de interjeições, caras e bocas. Não demorou muito e as conversas passaram a ser na cama, intercaladas por suor, palavrões e maconha, com a diferença de que no quarto eu não era só ouvidos.  Ambos tínhamos a certeza velada de que, passada a fase do sexo, aquela relação não sobreviveria, o que em mim deu uma surpreendente sensação de urgência. Nos víamos quase todos os dias, invadíamos as madrugadas e poucas vezes havia contato com o ao ar livre. A ideia comum – acreditava eu – era gastar aquilo tudo, até o esgotamento completo, sem incomodar-se com o porquê de um estar na presença, ao lado ou dentro do outro.

Brevemente separados pela luz do sol, da minha parte, a urgência invadiu a rotina. Escrevia mais, bebia mais, fumava mais. Dormia pouco e consequentemente mal, mas tinha a impressão de que vivia como nunca. De início, como quase sempre, o sexo em ritmo industrial impedia a minha entrada em solos sentimentais. Assunto motivo de risadas arrogantes e curtas que ratificavam nossa diferença para os populares de fora do quarto. Até quando passei a ter flashes diurnos da voz dela separando as três sílabas do seu nome lentamente nos meus ouvidos ou das vezes que me pegava cantarolando músicas que referenciavam nas letras lugares que ela havia visitado. Devaneios românticos muito bem sustentados por bilhetes de poucas palavras que encontrava no meu quarto quando voltava depois de tê-la levado para casa.

Mas, com o tempo, nos intervalos em que as carnes se desgrudavam e a visão da janela dava de queimar os cigarros, o desgaste ficava nítido, não mais camuflado da necessidade de silêncio e distância pós-gozo, que só quem separa tesão de lirismo conhece.

Não me aflige pôr na minha conta a razão de o fim não ter chegado antes. Meu deslumbramento e acomodação davam contornos ainda mais nítidos à nossa de diferença de idade, pensamentos e ambições desencontrados que só confluíam naquela certeza prematura de que nós tínhamos data de validade. Em um sábado, tivemos a chance de acabar com tudo em uma discussão tão burra quanto curta. Ainda era dia e menos de cinco minutos depois de ter entrado e fechado a porta do quarto, já havíamos discutido e ela colocava o capacete novamente, desaparecendo da minha vista na janela da sala. Lembro que saí correr pela primeira vez na vida. Precisava pensar em movimento ou talvez porque meus pés já estivessem atolados em campo afetivo.

Voltamos a nos encontrar ainda mais alguns dias, mas deixamos a coisa minguar até a morte. Foi em um dia da semana, não daria argumento para filme algum. E como convém ao meu gênero e à minha geração, coube a ela o enterro.

Hoje, raramente nos vemos. Na última vez, conversamos um pouco, mas cada um de dentro daquela bolha de camada grossa, incômoda, misto de cumplicidade e resignação.