Vida Crônica
Kid Cultura

Eu praticamente não falo com ninguém sobre o que leio. E ali todos estavam interessados no assunto. A conversa estava ótima. Até a menina que não memorizei o nome estava participando. A cerveja estava nos deixando falantes. As outras rodas de conversa estavam também a todo vapor. Quase não dava para ouvir mais a música. O ambiente estava tomado pelo som de gente conversando.

Perguntei para o meu amigo se era verdade mesmo que ele tinha lido os livros que citava. Na grande maioria das vezes! As meninas riram. É que tem uns que eu não lembro. Mentiu, rindo também. Bem que eu desconfiava.

Enquanto a gente conversava, alguns meninos e meninas passavam por ali e nos cumprimentavam, falavam alguma coisa da festa, ficavam um pouquinho com a gente e saíam. Até que uma hora, chegou um rapaz na roda. Óculos de armação grossa. Cabelo bem cortado. Bigode. Camisa. Paletó. Bem diferente dos caras que vestiam camisetas de banda e enchiam o lugar. Aparentava ter muito mais idade que todos nós. Chegou perguntando qual era o assunto que nos fazia parecer tão animados. Literatura, contos, disse meu amigo, me olhando logo em seguida de um jeito estranho. Ele não teve a mesma reação quando os outros que passaram por nós fizeram a mesma pergunta. Quando o rapaz abriu a boca de novo eu entendi.

Parecia uma palestra. Me lembrou algumas apresentações que a gente tem que assistir nas confraternizações do trabalho. Ele falava sobre os livros que estava lendo. Isso, lia de cinco a dez livros juntos. Para ele era difícil se concentrar em uma obra só, com tanta coisa para descobrir no mundo. Falava lentamente. Detesto gente que demora para continuar uma ideia e manda um ééééééééé. Era ele. Nesses intervalos intermináveis, mexia nos óculos, ajeitava o bigode. Olha só que interessante, éééééééé eu conversava dias desses com uma mestranda da área de Letras éééééééé sobre a representatividade do conto brasileiro na segunda metade do éééééééé século XX. Depois de um tempo, eu só reparava no jeito que ele falava. A maneira que acendia o cigarro como se estivesse na Paris dos anos 20. Sempre ajeitando o bigode e enfiando os óculos na cara com o dedo médio da mão esquerda. Só voltei do transe quando ele falou alguma coisa olhando diretamente para mim.

Desculpa, não entendi, arrisquei. Seu nome. É Kelly. Então, Kelly, o que você pensa disso? Eu não sabia o que eu pensava disso, porque não sabia o que era aquilo. Mas não teve problema. Ele mesmo respondeu por mim, sequestrando novamente a conversa. Continuei o devaneio. Taí um cara que é capaz de colocar os termos Idiossincrasia e Sui generis numa frase só.

E assim como apareceu, se despediu e foi embora. Quem é esse aí? É sempre assim? Fala tudo isso e sai? A gente não interage muito senão ele fica, disse a menina que eu tinha esquecido o nome. O nome dele é Caio, mas é mais conhecido como Kid Cultura, da música do Oswaldo Montenegro, sabe?

Todos ali meio que riram. E sem nenhuma necessidade de perguntar de que falava a letra da música, tomei mais um gole da minha cerveja.