Cultura & Vida
Meu presépio

            Segundo relatos, a invenção do presépio tem raízes no século XIII pelas caridosas mãos e genialidade de São Francisco de Assis na Itália. Um dos objetivos de São Francisco era ajudar as pessoas a compreender o imensurável mistério do nascimento de Jesus.

            Alguns outros santos na história da Igreja buscaram nessa fonte inspiração para pautar parte de seus ensinamentos sobre o Amor de Deus pela humanidade. Entre eles o santo educador São Marcelino Champagnat, francês que nasceu em 1789 e foi o fundador do Pequenos Irmãos de Maria, ou maristas.

            São Marcelino Champagnat ensinava que há três lugares especiais para nos encontrarmos com Deus. Champagnat teria inspirando-se no evangelho de Mateus, quando a mãe de João e Thiago, primeiros discípulos do mestre, chega para Jesus e pede: “Senhor, quando começar o seu Reino, garante para meus filhos um lugar à direita e outro à esquerda?”. O que eles desejavam era ter uma posição de destaque contrariando a lógica de Jesus. Champagnat ao contrário afirmava que, em vez de apenas um lugar como queria a mãe de João e Thiago, ele almejava três: o presépio, a cruz e o altar.

            Inspirado nessa Espiritualidade franciscana e marista, através da contemplação do mistério do amor de Deus, busquei compreender como foi o meu presépio, o chamado de Deus à vida. Imaginava que o nascimento de uma criança fosse tudo igual, mero engano. É especial a cada um.

            Nos anos de 1970 minha mãe, Maria, ainda adolescente teve sua primeira filha, a Rosana. Gravidez difícil, mais complicado foi depois do seu nascimento. A felicidade pelo nascimento daquele pequeno anjo foi substituído pelas inúmeras noites sem dormir. Rosana ainda nos primeiros meses havia contraído pneumonia ou sarampo e passava noites em claro sofrendo. A vida pobre na fazenda, onde moraram, não contribuiu para que houvesse facilidade e sucesso no tratamento.

            Rosana foi internada no Bom Jesus e lá ficou por alguns dias. Veio a alta, mas a doença persistiu. Minha mãe e meu pai desesperadamente a levaram ao Bom Jesus novamente e lá ela ficou eternamente no colo da Boa Mãe. Chorei ainda no ventre de minha mãe.

            Continuava chorando junto com minha mãe, sem ela saber. Sentia a sua dor e a minha dor. Deus permanecia conosco. No momento do parto o meu encontro com minha mãe e meu pai foi a presença de Deus em forma de presépio. Dali em diante minha vida transformou-se em um sacramento. (Texto em homenagem a minha irmãzinha Rosana – In memoriam).