Vida Crônica
O homenageado

 

Tempos atrás, estudantes do ensino médio de uma escola estadual entraram em contato comigo pelo facebook. Queriam me convidar para uma apresentação que fariam sobre meus livros de poesia. Segundo eles, a turma foi dividida em grupos e a professora pediu para que escolhessem personalidades da cidade na área da cultura ou do esporte. Um desses grupos me escolheu. Aceitei orgulhoso o convite. O evento seria dentro de algumas semanas e coincidiria com a gravação do podcast do qual participo, o Botecast. Seria corrido. Meu carro andava temperamental naqueles tempos, funcionava só quando queria. Para o bem da minha reputação de poeta pontual, seria melhor ir de outra forma.

A data do evento chegou. Foi marcado para às 19h. A gravação do podcast seria às 22h. Não levei meu carro para o conserto. Não procurei carona e já estava em cima do horário. Olhei para o possante, o fiz prometer que não me deixaria na mão e fomos para a escola. Estacionei próximo ao portão principal e entrei.

Um estudante veio me receber. Agradeceu minha presença e pediu para que eu aguardasse enquanto ela chamava as colegas e a professora de português. Nesse ínterim, no hall de entrada, atrás das fileiras em que professores, alunos e pais se acomodavam, permaneci atento à apresentação de um grupo sobre o folclore da região. Logo a professora chegou com as outras alunas. Algumas me perguntaram sobre onde encontrar meus livros à venda, outras pediram para que assinasse os exemplares que tinham encontrado pelos sebos da cidade. A coordenadora do projeto interrompeu nosso papo, pedindo desculpas e alertando que a apresentação sobre poesia seria a próxima.

Entramos em um auditório semivazio. No fundo do salão havia um suporte para projeções e atrás dele um enorme pano branco. Estavam todos além dele. Explico: o grupo anterior havia trazido alguns jogadores e o técnico da equipe de futebol do Operário Ferroviário que à época havia acabado de conquistar o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. A apresentação terminara e aparentemente todos os alunos foram para os bastidores tietar os atletas. Um frisson estava instalado. Havia fila para selfies, fila para autografar bolas, fila para abraço, fila pra perguntar como era ser jogador de futebol, fila para filas. A coordenadora me olhava constrangida e tentava, em vão, dissipar a aglomeração. Usava argumentos que, no fundo, nem ela acreditava que teriam efeito, como: “tá bom pessoal, agora teremos uma apresentação sobre poesia”, “é um escritor aqui da cidade”, “depois todos vão poder tirar fotos com os jogadores”. Temi, por alguns segundos, que uma bola voasse na direção dela.

Inúmeras frases sem efeito depois, os alunos foram se acalmando e voltando aos seus lugares com seus troféus devidamente registrados. A equipe iniciou a apresentação lendo alguns poemas e projetando as capas dos livros. Ao fim, me chamaram. Contei um pouco sobre a minha trajetória, falei da importância de eventos como aquele e agradeci a presença de todos. A apresentação seguiu. Entreguei alguns livros que haviam me encomendado e, antes de ir embora, ainda combinamos a realização de uma oficina de poesia na escola em breve. Entrei no carro crente que minha cota de constrangimento já estava garantida na noite. Elétrico engano.

Não previ que o carro pudesse não dar a partida. Havia um mínimo desnível entre a rua e o espaço em que estacionei. Tentei dar a partida várias vezes na esperança de que o temperamento da máquina mudasse. Nada. Abri a porta, olhei em direção à escola em busca de ajuda. Nada. Ouvia, sim, gargalhadas vindos do salão, meu senso dramático tinha certeza que eram pra mim. Passei a empurrar o teimoso até o asfalto. Eram aproximadamente três metros que, divididos em centímetros marcados a cada vez que colocava uma pedra para evitar o retorno do carro, levaram quase meia hora para serem vencidos. Amaldiçoei tudo em volta, escorreguei, caí. Sujo e suado venci.

Resignado, ainda comemorava o fato de incrivelmente ninguém ter visto a cena, quando olho por sobre o capô. Uma senhora, recostada na janela da casa em frente, me fita com um olhar cúmplice e de compaixão. Disse boa noite a ela, entrei no carro e desci a rua até o som do tranco do motor tirar minha dignidade do silêncio.