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O primeiro Prêmio Nobel de Química

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

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O holandês Jacobus Henricus van't Hoff era o terceiro dos sete filhos de um médico.

Com 15 anos era entusiasta da química e, às escondidas, realizava experimento com colegas tanto na escola como em casa. Sua preferência era pelas substâncias venenosas ou explosivas.

Mesmo contra a vontade do seu pai, em dois anos concluiu o curso tecnológico em química da Escola Politécnica de Delf, que teria duração de três anos.

Concluiu os cursos de matemática e física na Universidade de Leyden, Holanda, e de química na Universidade de Bonn, Alemanha.

Fizeram parte da sua formação ninguém menos que Kekulé e Wurtz.

Posteriormente realizou seu doutorado na área de química orgânica na Universidade de Utrech, Holanda.

Trabalhou na Universidade de Amsterdã como professor de química, mineralogia e geologia e, após 18 anos, aceitou o convite para ir a Berlim como professor honorário, vinculado a um membro da Royal Prussian Academy of Sciences. A principal razão para essa mudança foi a sobrecarga de serviço com a obrigação de ministrar palestras, orientar um grande número de estudantes, inclusive os da área médica, restando-lhe muito pouco tempo para fazer seu próprio trabalho de pesquisa.

Era grande defensor da criação de uma classe especial de estudos científicos.

A fama de van't Hoff se deu devido às suas publicações. As principais delas foram Bijdrage tot de kennis van het cyaanazijnzuren en het malonzuur (Contribuição para o conhecimento dos ácidos cianoacético e ácido malônico); o artigo Voorstel tot uitbreiding der tegenwoordige in de scheikunde gebruikte structuurformules in de ruimte (Proposta para o desenvolvimento de fórmulas estruturais químicas tridimensionais) foi a base para o desenvolvimento da estereoquímica, pois tratava dos conceitos do átomo de carbono assimétrico.

Esse estudo elucidava a ocorrência de inúmeros isômeros comprovados ​por meio das fórmulas estruturais que são vigentes até hoje.

A notoriedade e a fama de pesquisador com ideias revolucionárias veio após a publicação do artigo Chimie dans l'espace (Química no espaço).

Também publicou o livro Études de Dynamique Chimique (Estudos em química dinâmica) entrando pela primeira vez no campo da físico-química. Foi responsável por descrever a relação termodinâmica entre o calor da conversão e o deslocamento do equilíbrio como resultado da variação de temperatura.

Logo em seguida publicou o artigo L'équilibre chimique dans les systèmes gazeux ou dissous à I'état dilué (Equilíbrio químico em sistemas gasosos ou soluções fortemente diluídas), que tratava dessa teoria das soluções diluídas. Demonstrou que a pressão osmótica em soluções suficientemente diluídas é proporcional à concentração e à temperatura absoluta.

Desta mesma forma, muitos outros livros e artigos foram publicados por van’t Hoff.

O artigo do professor Ricardo Ferreira (FERREIRA, R. As origens da atividade científica no Brasil. Ciência e Cultura, v. 30, n. 11, p. 1.301-1.307, 1978) relata a visita de D. Pedro II em 1876 ao químico holandês Jacobus H. van't Hoff.

Na época, van’t Hoff tinha 24 anos e já era conhecido por seus trabalhos de estereoquímica, introduzindo o conceito de átomo de carbono assimétrico.

Para isso, havia construído modelos de cartolina ilustrando suas ideias sobre a estrutura molecular.

Estes estudos chamaram a atenção de D. Pedro, que questionou a van’t Hoff da possibilidade de construir modelos baratos, para serem vendidos juntos com os livros de química, ou em lojas de brinquedo.

Procurando auxiliar este trabalho, D. Pedro deixou ao químico uma grande quantia em dinheiro para facilitar no desenvolvimento dos estudos de criação de modelos de ensino da estrutura das moléculas para os estudantes.

Esta é a prova histórica, e não tão só por este motivo, que podemos afirmar que tivemos um dirigente maior que um dia se preocupou com o sistema educacional brasileiro. Por isso fica nosso muito obrigado, senhor D. Pedro II!

Voltando a van’t Hoff, ele próprio afirmava que o prêmio do primeiro Prêmio Nobel de Química (1901) foi para ele o ponto culminante de sua carreira.

Entre suas outras distinções foi condecorado doutor honoris causa de Harvard e de Yale (1901), de Victoria University, Manchester (1903), de Heidelberg (1908) e recebeu as medalhas de Davy da Royal Society (1893), de Helmholtz da Academia Prussiana de Ciências (1911) e foi nomeado Chevalier da Legião de Honra (1894), senador da Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft (1911) e era membro ou membro honorário da Chemical Society.

Como a vida de um pesquisador não é só flores, em 1880 sua indicação como membro da Academia Real das Ciências da Holanda foi retida por causa de um número insuficiente de votos e, somente em 1885, ele foi nomeado.