Cultura & Vida
Os três sonhos de um menino que amava futebol

Comecei a colecionar as figurinhas da Copa do Mundo de 1986 entusiasticamente. Correspondiam a duas paixões de menino. Uma o futebol e a outra ser colecionador. A cada moedinha que ganhava, nas idas ao boteco para meu tio e para meu pai, investia na compra das figurinhas. Os primeiros pacotinhos foi uma alegria só, pois quase sempre aquelas 4 figurinhas de cada embalagem ainda não estavam em meu álbum.

A sensação de surpresa foi sendo substituída pela decepção. Perguntava-me o motivo de vir nos pacotinhos sempre as figurinhas com a foto dos jogadores que já estavam em meu álbum. Eu estava com algumas repetidas, entre elas a do Zico, do Sócrates, uma do Júlio César e outra do goleiro da França Joel Bats.

Para essas questões eu utilizava duas estratégias. Uma era bater bafo e a outra fazer a permuta das figurinhas. No bafo era necessária muita habilidade, algo que nunca tive. Ao contrário de meus amigos que iam ao jogo com duas figurinhas e voltavam com 50, eu era o que ia com 50 e voltava com duas. Isso quando estava com sorte, pois às vezes nem mesmo duas restavam. Pensei bem e decidi que a permuta seria mais justa. Eu daria uma figurinha em troca de outra, mas também isso nunca funcionou comigo.

Eu estava com meu álbum praticamente completo, faltava apenas uma ou outra figurinha para preencher especialmente a seleção brasileira. Foi naquele momento que um amigo apareceu por lá, e me disse que estava com as figurinhas do Branco e do Casagrande sobrando.

Meus olhos brilharam e contive-me em fazer uma proposta de imediato. No bafo com certeza eu perderia. Optei pela segunda opção estratégica. Propus a troca. Meu “amigo” disse que, sendo as figurinhas dos jogadores que ele possuía muito difíceis de conseguir queria 2 figurinhas em troca de uma. Fiquei triste com a proposta, pois eu adorava especialmente o Sócrates e o Zico e diante dessa situação fiquei mais uma vez pensativo.  

Era dia 21 de junho de 1986 e eu menino de 10 anos de idade. Eu estava ansioso por dois motivos: um porque vibrava com o Brasil nas quartas de final disputando com a França e outro, pela promessa de meu pai de dar-me um jogo de camisas da seleção brasileira caso o Brasil fosse campeão. Pense em um piá empolgado!

Diante do jogo que logo iniciaria combinei com meu amigo fazermos a negociação depois, assim daria tempo para eu refletir no negócio durante o jogo. Que sofrimento foi aquela partida entre a França e o Brasil. O empate da partida no tempo normal levou o jogo aos pênaltis e nos causou infelizmente o luto. Indescritível foi a tristeza e o choro depois que o Sócrates e o Júlio César erraram o gol! Ao final da partida, com o coração inacreditavelmente gelado, meu amigo me perguntou se fecharíamos o negócio.

Peguei as 4 figurinhas que a mim estavam sobrando, uma do Zico, uma do Sócrates, uma do Júlio César e uma Joel Bats e entreguei-as a ele. Quando ele alegremente foi me entregar as do Branco e do Casagrande, com lágrimas nos olhos afirmei:

- Pode ficar com elas, são todas suas!

Sem o título de campeão do Brasil e sem o jogo de camisas já não fazia mais sentido o terceiro sonho de completar o álbum de figurinhas da Copa.