Vida Crônica
Passo a passo

a pedido do amigo, a bebeu de uma só vez.

bebia pra esquentar o frio na barriga.

fez a casa redonda para não chorar pelos cantos.

chorava por hábito, sorria por educação.

das absolutas certezas só queria a redundância.

depois do fim, o calendário tinha escala 1:1000.

distorcia os pontos finais até se tornarem vírgulas.

dormiam juntos e transavam em camas diferentes.

entrou em parafuso e espanou.

era avessa a lados.

feliz já foi e nunca voltou.

foi levado pelos gatos.

mantinha esperanças em álcool.

mastigava os dias da semana.

mimava a tristeza.

mirou no amor, errou em cheio.

os ombros não se encaixavam mais.

penteou todos os cabelos até sobrar nenhum.

perdeu a fé em algum canto do bolso.

perdeu os olhos na multidão.

plantou uma árvore no lançamento do primeiro romance.

por ela, já seria dele.

por horas desejou apenas a mão dela.

sofria de poesia crônica.

soltou um sorriso quando a saudade apertou.

sonhava e chamava o dia de insônia.

suas costas eram paisagem.

sussurrava ao pé da orelha do livro.

tatuava sorrisos.

tinha certeza de que tudo era relativo.

tinha esperança, mas sempre acabava dormindo.

tinha medo de esquecer a voz dele.

tinha opinião pra tudo e solução pra nada.

tinha porta-retratos vazios por toda a casa.

tinha tara por pés de ouvido.

tinham um cão chamado Volte.

tirava a aliança pra tomar banho.

tomava sol e vomitava.

via o nome dela e em cada uma das letras do outdoor.

costurou-se com um fio de esperança.

desistiu na penúltima hora.

chegou em casa, abriu o gás e sentou.

morreu de olhos abertos pra ver a luz no fim do túnel.

o outro morreu em cima do muro.

e as quatro pernas nunca mais voltaram a se encontrar.