Grupo Nanoita
Pesquisador ou Cientista?

Sergio Mazurek Tebcherani

Doutor em Química pela UNESP

[email protected]

 

No dia 19 do mês passado, publicamos neste espaço um artigo com o título “Pilha: um produto do bem ou do mal?” e no dia 9 deste mês foi anunciado em Estocolmo, na Suécia, os ganhadores do Nobel de Química de 2019.

Qual a relação existente entre nosso artigo e o Nobel de Química? Bingo! O prêmio foi para os três cientistas, John Goodenough (EUA) com 97 anos, Stanley Whittingham (Reino Unido) com 77 anos e Akira Yoshino (Japão) com 71 anos, que criaram a bateria de íons de lítio para o celular.

Recordemos que bateria é um conjunto de pilhas associadas.

Substituindo o cádmio, metal altamente contaminante para o meio ambiente, as baterias em miniaturas foram viabilizadas pela substituição das de chumbo-ácido, que eram muito grandes para serem usadas em eletrônicos portáteis.

As nanoestruturas de lítio potencializaram a corrente das baterias em até três vezes e passou a ser viável para utilização em automóveis, além de poderem ser carregadas com a energia eólica ou a energia solar.

Agora, fica uma pergunta: qual a competência que levou esses três senhores a chegarem a esse reconhecido resultado? A resposta é que os três são cientistas.

Cientista é aquele que exerce atividades contínua e sistematicamente para obter conhecimentos. Desses conhecimentos obtidos a ciência avança e novos produtos, compostos, objetos, dentre outras coisas são criados.

Por outro lado, existe também o pesquisador, que é aquele que busca uma resposta para um problema.

No mundo existem muitos pesquisadores que leem os artigos científicos que são publicados, reproduzem os experimentos em laboratório e criam, muitas vezes, um pequeno diferencial, o que permite publicar novos artigos em revistas de impacto.

Já os cientistas estão por aí, aos poucos, achando soluções para novos problemas. São verdadeiros desafiadores!

Um cientista não consegue criar algo novo todos os dias e, muitas vezes, os cientistas não estão fazendo ciência, e sim pesquisa, logo, eles estão exercendo o papel de pesquisadores.

Podemos concluir que todo cientista é um pesquisador, mas, a maioria dos pesquisadores jamais será um cientista.

De tempos em tempos ressurge a discussão sobre os valores investidos em projetos de pesquisa no Brasil. Sem usar da parcialidade por estar neste meio, acredito que quanto mais investimentos melhor para a ciência, para a pesquisa e para a população, desde que os projetos sejam seriamente avaliados e justifiquem sua relevância ou contribuição.

Nossas pesquisas “tupiniquins”, muitas vezes, são tão importantes e de competência quanto as que são executadas em países desenvolvidos.

A diferença que existe entre a nossa pesquisa e a desses países é que lá os recursos são muito maiores e muito mais ágeis que aqui.

O resultado é prático e direto: lá se conquista o Prêmio Nobel e aqui não.

Prêmios como o Nobel, por exemplo, são marcos de soberania de fronteira nacional. Sob este aspecto, não temos fronteira.

A nossa verdade é que nunca tivemos a competência de planejar um Brasil para nossos filhos e netos.

No mais, desejamos aos cientistas do Nobel de Química de 2019, saúde e vida longa para aproveitar o prêmio de R$ 3,7 milhões que receberam. Quanto ao resto? Isso não é problema, eles já deixaram o legado ao mundo e fazem parte do seleto grupo dos imortais!