Vida Crônica
Sobre cafés, tiaras e tapas

Uma das primeiras memórias que eu tenho com a minha mãe vem lá dos meus cinco anos, eu acho. Me sinto meio triste quando penso nisso. Porque tem gente que diz ter lembranças desde bem cedo de suas mães. Eu não. Lembro de coisa mais antigas. Umas cenas isoladas. Mas nenhuma delas tem ela no meio.

 

Aquele papo de que menina se apega mais ao pai é balela. Pelo menos pra mim. Eu não desgrudava da minha mãe. Eu adorava a presença dela. Claro que com meu pai sempre trabalhando, era só nós duas na casa. Mas bem por isso poderia ser o contrário. De tanto a gente ter contato, eu podia não aguentar ficar perto. Tenho um monte de amigas que são assim com suas mães. Não se suportam.

 

Eu sempre dormia com ela. Só nos fins de semana que meu pai estava em casa eu ia pro meu quarto. Segundo ela, ainda assim, de vez em quando eu batia na porta do quarto deles pra pedir cama. Não lembro disso. Lembro dela esfregando as mãos em cima do vapor da chaleira, esperava um pouco e colocava uma mão em cada bochecha minha pra esquentar. Também cantava umas músicas estranhas numa língua que ela tirava sei lá de onde. Mas aí tudo já cheirando a café de mãe e com o sol da manhã fazendo réstia no vidro da janela da cozinha. Disso até a hora do almoço eu passava na frente da TV. Ela nunca se incomodou de me deixar na mãos dos desenhos infantis. Pelo contrário, comprava envelopes pra que enviasse as cartas pra ganhar os prêmios dos programas. Eu escrevia, fechava com cola e jogava atrás da estante. Ela achava engraçado. Tadinha, ela pensa que é assim que funciona! Contava rindo pra todo mundo. Só que eu sabia que tinha que selar e enviar pelo correio. Mas assim que eu terminava as cartas, ficava com vergonha de enviar e escondia elas atrás do móvel.

 

Ela brigava pouco comigo. Lembro de uma vez que uma vizinha me deu uma lapiseira de aniversário. Fiquei brava. Quem dá uma lapiseira pra uma criança? Joguei no chão assim que ganhei. Minha mãe me fez pedir desculpas na hora e num bilhete que escrevi depois usando a tal “lembrancinha”. Fora a coça que levei. E teve outras vezes, mas mesmo assim foram poucas. E tinha também os sábados. Era dia da limpeza. Eu lembro que comparava ela com uma daquelas formigas vermelhas. Aquelas que têm a picada bem ardida, sabe? Era minha mãe. Só de olhar pra ela já se irritava.

 

Me enfeitava com todo o tipo de tiaras que você puder imaginar. Daquelas mais bonitas, com laços e tudo até as de plástico vagabundo. Sempre estava eu lá, de tiara e franja! Só fui usar uma calça fora de casa lá pelos dez anos de idade. Tivesse o frio que fosse, eu estava de vestido ou saia. E com as meias-calça mais grossas do lugar.

 

Todas essas passagens aí de infância vieram depois dos cinco anos. E a primeira lá, foi de uma dia que a gente tava no centro - city, ela dizia. Num ponto de ônibus, sei lá porque, eu perguntei pra ela se quando eu morresse, ela iria no meu enterro. Que isso? E meio sem pensar mandou um tapa na minha boca. Me deu vontade de chorar. Não por causa do tapa, mas por ter feito essa pergunta.